SCRIPTORE

Inútil deter-se na casca das plantas para conhecer sua natureza. (Michell Foucault)

Cecília Ferreira*


Difere o escrevente do escritor, afirma Roland Barthes quando constata que o último comporta as normas técnicas e as artesanais. É o escrever em busca do sentido das coisas, a “palavra é uma matéria (infinitamente) trabalhada” e o “real lhe serve apenas de pretexto”, conclui Barthes afirmando que a literatura é sempre irrealista.

O conto se pressupõe literário, transitivo. É o gesto (que se sustenta no ar, embora continuado) se opondo à atividade nua, crua e finalizada que denotará a diferença entre o conto e a crônica. Se ensina, testemunha e explica perde a qualidade de literatura, e do conto leva apenas a pretensão. A palavra que é meio não serve ao escritor.

Massaud Moisés diz que a prosa é denotativa, mas ressalva que a denotação explícita esconde um plano interno, um subentendido textual sem o qual a prosa de ficção corre riscos. Quer dizer, o conhecimento da linguagem, a cultura adquirida e a criação de uma boa história, mesmo lírica, é passível de perder-se na frouxa pororoca das águas claras e ácidas do real e turvas e doces da irrealidade.

O escritor não prescinde do conhecimento. Mas, essa sabedoria, ainda que seja o manejo da palavra, se estagnada num único compartimento sem abertura ou permissão de interação é como informação em computador serve para a pesquisa e não para a análise. A imitação de estilo tem feição de água parada, apodrece. Ou, gelada, é icberg ocultando noventa por cento do seu corpo, corpo que teria se “cópia” não fosse. O escritor vira escrevente. Porque como quer Proust “a sabedoria não se transmite” é “uma maneira de ver as coisas”; é água corrente que transborda e inunda qualquer ambiente permitindo irrigação e avanços. Assim os neurônios, assim as palavras.


Se alguém disser que a língua se regula através de decretos e regras impostas de cima para baixo, a força desta afirmação será o que é: quase nada. Regula-se hoje e, amanhã, riachos, córregos e outros desvios que a própria natureza fluida lhe indicar, rio a correr caudaloso pelo pantanal em época de chuva, invadirão.

Sobre literatura nenhum de nós sabe tudo, assim como todo mundo sabe um pouco. A alguns agrada apenas um estilo; a outros, as novas idéias, especialmente as que delatam caminhos sociais, as linguagens populares e novas atreladas ao bom uso de uma língua, encantam. Afirma Ezra Pound que a despeito das gradações “Literatura é novidade que permanece novidade”.

Depois de Proust qualquer personagem pode exprimir-se “na opacidade de uma linguagem particular” (ainda Pound), é a disparidade social escancarada no papel, num ato consciente de bons autores que são capazes de transformar o chulo em literatura.

Assim, não se nega aos grandes a sua marca de bom literato, sempre teremos um Bosi a registrá-los. Mas, se o tom cabe aos autores, o paladar literário é prerrogativa dos leitores. Diz Ezra: “O crítico que não tira suas próprias conclusões (...) não é um medidor, mas um repetidor das conclusões alheias”.

E, como salvaguarda geral, reza Pound, “Não há ‘medidas’ idênticas para duas pessoas”.

*Cecília Ferreira é escritora, jornalista, membro da Academia Araçatubense de Letras. Fez parte da comissão julgadora da 22.ª edição do concurso nacional de contos Cidade de Araçatuba.