Poeta Sérgio Vaz abre a 2. ª Semana da Literatura de Araçatuba





Nesta quarta-feira, 8 de setembro, 20h, no auditório do Senac, se dá a premiação do Concurso Nacional de Contos Cidade de Araçatuba e início da Semana da Literatura.
Em 2010, com o patrocínio do SESC, a abertura se dará pelo poeta Sérgio Vaz, que é o novo da literatura atual.
A revista Época, 06/03/2009, publicou uma reportagem sobre Sérgio Vaz, que reproduzimos abaixo:


Sérgio Vaz, o poeta que agita a vida cultural da periferia de São Paulo
Revista Época, 06/03/2009

O poeta Sérgio Vaz sofre de insônia. Por volta de 1 hora da madrugada, ele se aconchega à mulher, Sônia, e até dorme. Três horas depois, acorda com o coração em batida de rap no peito e as ideias falando alto, todas ao mesmo tempo na cabeça. Tem os olhos arregalados, as mãos não param quietas nem ele deitado. Ninguém, com exceção de Sônia, tem vontade de curar a vigília forçada de Sérgio Vaz. Por uma razão egoísta. A insônia desse homem entroncado, de personalidade marrenta e traços que parecem esculpidos por Mestre Vitalino – o célebre ceramista de Caruaru – tem despertado um Brasil que dorme mesmo quando acordado.

O dia começa pontualmente antes da hora na casa típica da periferia paulista, nos arredores de Taboão da Serra. Um portãozinho lá na frente e uma tripa de casas unidas por um corredor. A dele, onde vive com a mulher e a filha Mariana, de 16 anos, é a última. Na parede externa, Vaz mandou pintar uma praia com coqueiros no concreto para que pudesse pegar um sol nos churrascos de domingo. Com sua ironia afiada a cada madrugada, por uma mistura de amor e raiva, é na praia que ele recebe as visitas.

Quando acorda de supetão, antes de todos, mas com a sensação de estar atrasado para a aventura do mundo, Sérgio Vaz não come nada. Só engole um café com leite para não correr o risco de perder a insônia. Ele não come porque, a cada manhã, aos bocados e com todos os dentes, mastiga o biscoito fino do poeta modernista Oswald de Andrade (1890-1954). Como diz o historiador Eleilson Leite, um dos maiores conhecedores da cultura de periferia, Vaz faz ainda um pouco mais do que o escritor antropofágico sonhou: ele próprio se tornou “o biscoito fino que veio da massa”.

“As pedras não falam, mas quebram vidraças”
SÉRGIO VAZ, poeta da periferia

O mais recente produto da falta de sono de Sérgio Vaz estreou na úlitma segunda-feira: o “Cinema na Laje”. Tempos atrás ele acordara com esta inquietação: “Por que na periferia não tem cinema?”. E, já no sofá da sala, concluiu: “Se não nos deram cinema, vamos criar um. De graça”. Na estreia, reuniu mais de cem pessoas, algumas num cinema pela primeira vez aos 42 anos de vida, como a faxineira Rosilda de Souza. O público comia pipoca, mas também algo um pouco mais substancioso: jabá com mandioca, costela de porco com angu. A caráter, paramentado de vermelho e dourado, o pedreiro Piauí virou lanterninha. Ali, eram todos ao mesmo tempo plateia e protagonistas. O filme de estreia era um documentário sobre a Cooperifa, o produto mais espetacular da insônia de Sérgio Vaz. Ou, como ele diz: “O filme de ação mais romântico da breve história da nossa humanidade comunitária”.

Dizer que Sérgio Vaz criou o maior sarau de poesias do Brasil não dimensiona o significado da Cooperifa. A cada quarta-feira, nos últimos sete anos, centenas de pessoas vindas de todos os cantos da periferia paulista recitam e ouvem poesia num boteco de quebrada. Office boys, taxistas, funileiros, sorveteiros, empregadas domésticas, eles pegam o microfone e tomam conta da literatura, que nunca tinha sido deles até então. “Trabalho a vida toda com poesia e nunca vi uma plateia reagir assim”, diz a crítica literária Heloisa Buarque de Hollanda. “Sérgio Vaz e a Cooperifa democratizaram o uso da palavra, numa operação política brilhante.”

Vaz começou tomando uma fábrica interditada, em 2001, para fazer uma mostra cultural. Depois, vagou por muitos botecos, até instalar-se no bar do Zé Batidão, na Piraporinha, Zona Sul de São Paulo. O bar é passado e futuro para Vaz. Foi lá que ele trabalhou dos 12 aos 22 anos, no balcão, quando o dono era o pai. Um patrão implacável, mas também grande leitor, o pai ao mesmo tempo oprimiu e inspirou. Enquanto os meninos perseguiam na várzea o sonho que também era dele, Vaz escrevia furiosamente em papel de pão. Ao conhecer mais personagens reais do que qualquer escritor sonharia, o palmeirense acabou virando poeta. “Eu queria estar jogando futebol. Para me libertar, lia e escrevia muito”, diz. “Com Os miseráveis, de Victor Hugo, descobri que não existia só a miséria material, mas a humana, a que atinge todas as classes sociais. Foi uma grande descoberta.”

Quando o sarau de poesias ficou sem lugar, Vaz procurou o novo dono de sua antiga “senzala”. Zé Batidão é um mineiro com olhos que tudo veem, fala mansa. Quando alguém acha que o Zé está indo, ele já foi e voltou meia dúzia de vezes. Tornou-se “o mecenas da Cooperifa”. Até biblioteca criou, entrincheirada dentro do bar. Sobre a estante, os troféus de seu time, o Sete Velas Caveirão, ofuscam os clássicos.

De volta ao cenário da adolescência, Vaz inventou um “quilombo moderno”. Não só libertou a si mesmo, como arrancou os grilhões históricos que impediam a periferia de alcançar a palavra escrita. “A periferia não tem museu, não tem teatro, não tem cinema. Mas tem boteco”, diz. “Então transformamos o bar do Zé Batidão em centro cultural.”

QUASE NO CÉU
Toda primeira e terceira segunda-feira do mês, o bar do Zé Batidão, na Zona Sul de São Paulo, oferece o “Cinema na Laje”. Essa é a mais recente realização da Cooperifa

Vaz é um exemplar cada vez mais raro de homem-multidão. Raramente conjuga verbos no singular. A personalidade plural tornou a Cooperifa o que ela é. “Um dos fenômenos socioculturais mais importantes deste país nas últimas décadas”, afirma o poeta e professor de literatura Frederico Barbosa, diretor da Casa das Rosas. “Há muitos escritores e poetas, mas poucos artistas. O Sérgio é artista, vive visceralmente sua poesia, interfere na paisagem”, diz o escritor Marcelino Freire. “Quem estudar a história da literatura brasileira hoje precisa dividir entre antes e depois de Sérgio Vaz e da Cooperifa. É um marco.”

É a personalidade de Vaz – e uma inteligência muito, muito rápida – que garante a sobrevivência da Cooperifa como o que é. Aos 44 anos, sua insônia se deve em parte à defesa diuturna do sarau, cuja fama atraiu gente do bem, mas também toda espécie de corsários. Vaz é passional, dramático. Mas é, antes de tudo, um estrategista cerebral, que sabe riscar e manter limites. Por esse motivo, é indigesto para muita gente. “Vaz não chama urubu de meu louro, e por isso coleciona desafetos”, diz Eleilson Leite. “Com ele não tem meio-termo. Sua jugular está sempre saltada. É uma fera. Mas, entre seus pares, o bicho é manso.”

Vaz não faz conchavos nem ajeita esquemas. “Fico atento para não me colocarem na jaula”, diz. Na madrugada, tecla ferozmente o computador para atualizar seu blog www.colecionadordepedras.blogspot.com. É lá que divulga suas ideias mais incendiárias. Como numa manhã de 2007 em que despertou “intratável” e decidiu fazer a Semana de Arte Moderna da Periferia, 85 anos depois do evento criado pelos modernistas. Fez. E lançou um manifesto antropofágico “contra os vampiros das verbas públicas e arte privada”.

Ele não permite que o nome do sarau – hoje uma grife – seja usado pelos muitos que querem “mencioná-lo” em projetos para angariar verbas públicas e incentivos privados de todo tipo. “Se o cara vem até aqui dizer que tem um projeto ótimo pra nós, é porque não é bom pra nós. O que é bom pra nós a gente tem de insistir”, afirma. Faz parcerias, mas tem o cuidado de se manter independente. Às vezes dispensa patrocínio, como no caso do “Cinema na Laje”, para não se prender a ninguém nem deixar o povo mal acostumado. “Não quero dominar o país, não quero ser o chefe de todas as ONGs, não quero ir pro Fórum Social Mundial”, diz. “Então, não me preocupo em agradar.”

Na Cooperifa, não se vê tênis ou roupa de marca nem legítima, nem pirata. A maioria usa grifes produzidas na própria periferia. É a prática de uma ideologia que defende a criação de um mercado próprio como reação política à exclusão. “Agora temos mais poder aquisitivo, e a única coisa que esse mundo respeita é o mercado. Então, temos de inverter a bússola e consumir o que é bom – e não o que nos dizem que é bom”, diz Vaz. “Temos de ser violentos sem usar a violência.”

Vaz é um misturador de mundos. A Cooperifa não vai a lugar algum, mas qualquer um é bem recebido na Cooperifa. Para Vaz, não basta estar junto. Tem de estar “misturado”. “Assim como não existe só gente boa na periferia, não tem só gente que não presta na classe média. A gente quer juntar pessoas boas aqui na periferia. Não importa de onde venham, mas que cheguem até aqui”, diz. “A Cooperifa é um lugar para praticar a igualdade. Essa é a nossa revolução.”

A primeira providência que Vaz tomou ao criar o sarau foi dessacralizar a poesia, “tirá-la do pedestal” para que passasse de mão em mão. No sarau se faz silêncio para escutar. Quando acaba, as palmas são do tipo que incham as mãos. “Estão achando que tão no Municipal?”, grita Vaz, quando soa fraco. E a laje estremece. A recepção tem transformado não uma, mas centenas de vidas. “Seria muita irresponsabilidade minha dizer para quem chega aqui que vai virar artista”, diz Vaz. “O que a gente forma aqui são leitores, cidadãos. Hoje perdemos poetas para as aulas na universidade, não mais para a novela. A Cooperifa é passagem.”

Vaz não passou do ensino médio, mas vendeu mais de 7 mil livros, a maioria de mão em mão. Seu talento só chegou às livrarias nos últimos dois anos, com a coletânea de poesias Colecionador de pedras (Global, 2007) e Cooperifa – Antropofagia periférica (Aeroplano, 2008). No sarau, ele não permite discurso, desabafo, ali é espaço de poesia. Mas teve a lucidez de acolher qualquer tipo de poema. Há versos de punhos cerrados, mas há linhas de sexo e dor de corno, porque a vida só é vida com raiva, mas também com amor. Ao não excluir sentimentos, acolheu todas as pessoas. “Povo lindo, povo inteligente, é tudo nosso!”, diz a cada quarta-feira no início do sarau. Na mesma hora, saraus inspirados na Cooperifa se conectam espiritualmente, como o “Sarau do Bezerra”, em Porto Alegre, e o “Coletivoz”, em Belo Horizonte.

Nesta quarta-feira, será reeditada outra das criações insones de Sérgio Vaz: o “Ajoelhaço”. Na homenagem ao dia da mulher, os homens cooperiféricos esfregam anualmente o joelho no chão para pedir perdão pelas infâmias cometidas. “Ajoelha aí!”, Vaz costuma berrar para os mais ariscos.

Um dia um intelectual reclamou a Vaz: “Na Cooperifa vocês ensinam a escrever errado! Vão acabar deixando recado na porta da geladeira com ‘nóis vai’”. O poeta respondeu, com a verve habitual: “Primeiro, que não tem geladeira pra botar recado. Segundo, que quando nóis vai, nóis vai mesmo”.